Para Ligia Maura Costa, o confortável berço de ouro – e esplendido – foi apenas a mola propulsora para uma carreira brilhante que começa com sua ingressão no prestigiado curso de Direto da Faculdade Largo de São Francisco (USP). Não parou mais. Deu aulas e palestras em diferentes países, lançou diversos livros e se tornou uma das mais prestigiadas vozes femininas de Rio Preto, seu ponto de partida para o infinito e para onde ela sempre faz questão absoluta de voltar.
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Você acaba de ser eleita para o Conselho de Administração do Pacto Global da ONU. Como foi essa escalada até este dia e o que significa?
Vejo essa eleição como o reconhecimento de décadas de trabalho voltadas à promoção da integridade, da boa governança e do desenvolvimento sustentável. Nunca construí minha trajetória pensando em cargos, mas em contribuir para o fortalecimento de instituições, empresas e da sociedade. Ao longo dos anos, tive a oportunidade de atuar na academia, na advocacia, em organismos internacionais e em diferentes conselhos. Integrar o Conselho de Administração da Rede Brasil do Pacto Global é uma grande honra e também uma grande responsabilidade. É a maior iniciativa de sustentabilidade corporativa do mundo e participar de sua governança significa ajudar a construir um ambiente empresarial cada vez mais íntegro, transparente e comprometido com o desenvolvimento do país.
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Ainda no âmbito internacional, quais conquistas mais marcaram sua trajetória profissional?
Tive o privilégio de estudar e lecionar em alguns dos mais importantes centros acadêmicos do mundo, além de participar de organismos internacionais e redes globais voltadas à governança e à integridade. Entre os momentos mais marcantes, destaco a oportunidade de representar o Brasil em fóruns internacionais, integrar iniciativas globais de governança, publicar trabalhos com repercussão internacional e colaborar com universidades e instituições de diferentes países. Mais recentemente, tive a honra de ser reconduzida ao Conselho Global do Fórum Econômico Mundial sobre Boa Governança e eleita para o Conselho de Administração da Rede Brasil do Pacto Global da ONU. No entanto, considero que minha maior conquista foi contribuir para levar ao cenário internacional debates sobre integridade, governança e combate à corrupção desenvolvidos no Brasil, demonstrando que temos muito a ensinar e também muito a aprender.
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São muitos livros publicados. O último, “Lava Jato: Histórias dos Bastidores da Maior Investigação Anticorrupção do Brasil”, repercutiu nacionalmente. Qual a importância dele?
Esse livro faz parte de um projeto de pesquisa mais amplo sobre um dos capítulos mais relevantes da história recente do Brasil. A edição em português reúne depoimentos de 22 protagonistas da Operação Lava Jato e busca preservar a memória institucional daquele período. Em 2025, a editora internacional Palgrave Macmillan publicou uma versão ampliada em inglês, intitulada “Brazil’s Biggest Corruption Scandal: Testimonies from Operation Car Wash”, na qual, além dos depoimentos, apresento análises e comentários sobre os principais acontecimentos e seus impactos para o Brasil e para o debate internacional sobre corrupção. Meu objetivo nunca foi defender ou condenar a operação, mas contribuir para uma reflexão equilibrada sobre seus acertos, desafios e legados. Independentemente das diferentes opiniões que desperta, a Lava Jato foi um fenômeno jurídico, político, econômico e social que continuará sendo estudado por muitos anos.
“Nunca construí minha trajetória pensando em cargos, mas em contribuir para o fortalecimento de instituições, empresas e da sociedade.”
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Ainda sobre a Lava Jato, quais foram seus principais erros e acertos? E Sergio Moro, mais acertou ou errou?
A Lava Jato teve o mérito de revelar esquemas complexos e sistêmicos de corrupção no país, impulsionando avanços importantes em programas de compliance e integridade, controles internos, acordos de leniência e cooperação internacional. Ao mesmo tempo, algumas controvérsias processuais e decisões posteriores do Supremo Tribunal Federal geraram intensos debates sobre os limites da atuação judicial e as garantias do devido processo legal. Quanto ao Senador Sergio Moro, prefiro não personalizar uma discussão que é muito maior do que qualquer indivíduo. O que me parece inegável é que a Lava Jato revelou, na época, o maior esquema de corrupção da história do país, amplamente documentado por provas, confissões, acordos de colaboração e cooperação internacional. As discussões jurídicas e as decisões posteriores pelo Supremo Tribunal Federal, não alteram a relevância histórica dos fatos revelados pelas investigações, nem os importantes debates institucionais que elas suscitaram. Na minha avaliação, algumas dessas decisões contribuíram para enfraquecer a percepção de efetividade do combate à corrupção no Brasil, mas os fatos revelados pela operação permanecem como um marco da história institucional brasileira.
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Você é frequentemente convidada pelas grandes mídias para avaliar o cenário internacional. Na sua visão, os próximos anos tendem a ser melhores ou piores?
O mundo atravessa uma fase de profundas transformações. Tensões geopolíticas, inteligência artificial, mudanças climáticas e novas dinâmicas econômicas estão redesenhando as relações internacionais. Não acredito necessariamente em um cenário melhor ou pior, mas certamente mais desafiador. Sou otimista por natureza. Acredito que os países, empresas e instituições que investirem em inovação, educação, integridade e boa governança estarão mais preparados para enfrentar esse novo ciclo.
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Trafegando em ambientes predominantemente masculinos, quais foram os maiores desafios para ocupar espaços de liderança?
Talvez o principal desafio tenha sido provar competência repetidas vezes. Durante muitos anos, era comum ser a única mulher em determinados ambientes de decisão. Felizmente, essa realidade vem mudando. Aprendi que liderança se constrói por meio da credibilidade, da consistência e da capacidade de gerar resultados. Ocupar espaços é importante, mas abrir caminhos para que outras mulheres também possam ocupá-los é ainda mais.
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Recentemente, você lançou o projeto Las Haciendas, na região sul de Rio Preto. O que a motivou a desenvolver essa iniciativa?
Las Haciendas nasceu de uma reflexão sobre legado. Ao longo da minha trajetória profissional, tive a oportunidade de conhecer alguns dos melhores projetos urbanísticos e de qualidade de vida do mundo. Percebi que as pessoas buscam cada vez mais experiências que combinem bem-estar, natureza, segurança e convivência. A motivação foi justamente criar algo que respeitasse a história, o legado familiar e a vocação da região, mas que ao mesmo tempo estivesse alinhado às expectativas das novas gerações. Mais do que desenvolver um empreendimento, a ideia é contribuir para a construção de um legado duradouro para Rio Preto, promovendo qualidade de vida, desenvolvimento sustentável e uma conexão mais harmoniosa entre as pessoas e o ambiente onde vivem.
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O que Las Haciendas tem de diferente e quais pontos do projeto foram inegociáveis para você?
Desde o início tinha clareza de que não queria apenas criar mais um empreendimento, um lugar para morar, mas uma experiência de vida. Por isso, alguns pilares foram inegociáveis: a valorização da natureza, a qualidade urbanística, a segurança, os espaços de convivência, infraestrutura sustentável e o conceito de wellness, que hoje ocupa papel central nos projetos mais inovadores do mundo. Também foi fundamental pensar o desenvolvimento de forma sustentável, equilibrando crescimento, preservação ambiental e bem-estar. O objetivo é criar uma região da cidade que seja relevante ao longo do tempo, com raízes profundas como a figueira plantada em frente à pedra fundamental da avenida que leva o nome do meu pai, Dr. Delcides Garcia da Costa, e que possa ser desfrutado pela geração presente e pelas futuras gerações.
Essa visão reflete a própria essência do desenvolvimento sustentável: pensar o presente sem perder de vista a responsabilidade que temos com aqueles que virão depois de nós.
“Talvez o principal desafio tenha sido provar competência repetidas vezes. Durante muitos anos, era comum ser a única mulher em determinados ambientes de decisão. Felizmente, essa realidade vem mudando.”
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Você se divide entre Rio Preto, São Paulo, Lisboa, Madrid e Paris. Como é sua vida nessas cidades?
Cada uma dessas cidades ocupa um lugar especial na minha vida. São Paulo é o centro da minha atuação profissional e acadêmica no Brasil. Lisboa tem se tornado uma presença cada vez mais importante, tanto pelos laços culturais quanto pelas atividades profissionais que desenvolvo em Portugal, onde mantenho escritório e participo de projetos e eventos internacionais.
Madrid tem um significado muito particular por conta das minhas origens familiares espanholas. É uma cidade com a qual sempre senti uma conexão especial e que reforça meus vínculos com a cultura e a história da minha família. Paris ocupa um lugar especial na minha trajetória profissional e acadêmica e continua sendo uma fonte permanente de inspiração intelectual e cultural. Gosto dos museus, da história, dos cafés. Mas Rio Preto continua sendo meu porto seguro. É onde estão minhas raízes, minha família e muitas das referências que moldaram quem sou. Paris alimenta minha curiosidade intelectual, Lisboa reforça minha conexão com o mundo lusófono, Madrid representa o legado e Rio Preto alimenta minha alma.
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Depois de tantas conquistas em diferentes áreas, o que ainda move e inspira Ligia Maura Costa hoje? E quais os planos futuros?
O que me inspira continua sendo a possibilidade de construir algo que permaneça, um legado mesmo. Isso vale para um aluno que ajudamos a formar, uma pesquisa que produzimos, uma instituição que fortalecemos ou um projeto que ajudamos a desenvolver. Em diferentes momentos da minha vida, o que sempre me moveu foi essa ideia de legado. Quanto aos próximos passos, pretendo continuar contribuindo para o fortalecimento da integridade, da boa governança e da formação de novas lideranças, no Brasil e no exterior, sem jamais perder a conexão com minhas raízes e com a cidade onde tudo começou.
